Edição 17
O número que veio do nada: a fascinante história do zero

A tualmente temos como certo que o zero é um número, porém nem sempre foi assim. Na verdade, foi necessário muito tempo e discussão para chegarmos a essa conclusão.
O zero é a representação do vazio e é particularmente importante em sistemas numéricos posicionais, pois nestes sistemas a posição dos números define seus valores. Por exemplo, o número 2 nos números 25 e 205 representa valores distintos, sendo 20 e 200, respectivamente. Se não há representação para o vazio, os dois números podem parecer 25 ao invés de 25 e 205, o que gerava muita confusão. Ao longo do tempo, para enfrentar este desafio, as civilizações adotaram formas de representar o vazio.
Em 300 a.C., na Babilônia, foi criado um símbolo que representava o vazio, servindo para preencher o espaço onde ele precisava ser representado.
Em 36 a.C., os maias tiveram a mesma ideia que a Babilônia, mas com representações muito mais complexas.
Assim como a vírgula integra o nosso sistema numérico, mas não possui valor de fato, os símbolos criados até então também não possuíam valor, ou seja, não eram considerados um número.
Na Índia, o símbolo utilizado para representar o vazio era o “0”, porém este ainda não era tratado como um número, visto que ainda não havia formalização das regras aritméticas para sua utilização em operações matemáticas.
Em 628 d.C., o matemático indiano Brahmagupta publicou sua obra Brahmasphutasiddhanta, onde além de estabelecer bases para a álgebra moderna, equações quadráticas e geometria, foi pioneiro ao tratar o zero como um número.
Os indianos desta época já tinham o conceito de eternidade e vazio em suas crenças, como acreditar que o mundo veio do nada e voltará para o nada. Por conta disso, eles aceitaram o conceito do zero como um número com facilidade.
Em 630 d.C., inspirados na obra de Brahmagupta, a China e o Oriente Médio também passaram a utilizar o zero como um número.
Em 970 d.C., o conceito do zero como um número chegou à Europa, porém os europeus tiveram grande resistência para considerar o zero como um número. A questão eram suas crenças, porém, diferentemente dos indianos, a Igreja Católica entendia que o zero dava início aos números negativos e estes legitimavam o conceito de dívida e empréstimo. Além disso, o zero era visto como um mundo sem Deus, o que fez algumas autoridades religiosas locais proibirem o uso do zero em contextos específicos, como na contabilidade comercial. Vale citar, porém, que o uso do zero na contabilidade facilitou muito o dia a dia dos comerciantes, o que fez com que estes adotassem o uso do zero de forma clandestina.
A crença da Igreja Católica atrasou em séculos o estabelecimento oficial do zero como um número na Europa. Durante o longo debate sobre o tema, o matemático italiano Leonardo Fibonacci foi um dos maiores responsáveis pela popularização do sistema numérico indo-arábico na Europa no século XIII.
Finalmente, por volta de 1400 d.C., o zero foi considerado oficialmente um número e foi amplamente adotado, o que possibilitou avanços significativos em diferentes áreas, como na matemática moderna, computação e engenharia, consolidando a representação do vazio como um número como uma das maiores invenções da humanidade.
Continue nesta edição
Edição 17 · Março de 2026
Psicologia do esporte: a mentalidade dos vencedores
Edição 17 · Março de 2026
